Filmes Estranhos: ‘Devorar’ (PARTE 3)

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[…] Primeiro, as sequências envolvendo diretamente o transtorno, conseguiram nos incomodar profundamente. O cineasta conduz esses momentos para nos provocar um sentimento de proteção, de querer invadir a tela para intervir, não podendo, claro, tendemos a ficar nos contorcendo na cadeira de incômodo, aflição e até revolta. Gostamos muito de como o filme consegue nos puxar psicologicamente, assistimos o tempo todo pensando: ” muié, tu não tá vendo que isso vai dar ruim? O que que tu acha que vai acontecer?” E até o que é omitido, é muito bem dosado para causar o seu devido impacto. Como assim? É que quando não vemos ela comendo, essa perturbação até se agrava porque nem “vigiar” podemos mais. E aí, depois do filme jogar o nosso desconfiômetro lá nas alturas, revela como ela já progrediu na surdina enquanto não estávamos vendo; e ver os objetos que ela botou para dentro e para fora depois, impacta demais – pelo menos foi o que aconteceu conosco. Reparem, também, que depois que o bagulho se agrava, a moça raramente aparece se alimentando com comida de verdade; até em um dos poucos momentos que ela parece comendo algo comestível, é um salgadinho, algo com valor nutricional tão baixo que o galerê até costuma chamar de isopor, o que, claro, não é um ponto sem nó, é mais uma artimanha narrativa para nos atazanar com a sensação de ela estar subnutrida.

Desta forma, acreditamos que o filme seja muito eficiente, e sensível até ao abordar esse transtorno mental; consegue nos fazer acreditar nas ações auto-destrutivas da protagonista, através de situações que elucidem verdadeiramente que ela não consegue se conter e sequer teria capacidade para compreender a gravidade dos seus atos. Agora, não vamos dizer que é uma protagonista agradável de acompanhar, porque não é mesmo, ela é encolhida, murcha, sem ânimo, sem muita noção, alto boicotável, mas, o que nos fisgou para dentro da história é que, como adiantamos, o filme não se fecha na questão da culminância, ele tem algo a mais a dizer ao estudar a personagem e avaliar as origens do seu mal, alcançando assim uma maior riqueza temática e conseguindo nos fazer continuar interessado no que aquela mulher está passando.

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